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No comecinho do mês, o jornal britânico The Guardian publicou um artigo de Gordon Brown, primeiro-ministro do Reino Unido entre 2007 e 2010 e enviado especial das Nações Unidas para a educação global. O texto se refere aos protestos de jovens que vêm abalando as principais cidades europeias – que ele chama de “terremoto juvenil”. Em suas palavras, “é fundamental compreender a revolta que agora une uma geração”. As manifestações começaram em Paris, chegaram a Roma e se espalharam. Setembro e outubro registraram mobilizações na Bélgica, Áustria e Grécia devido ao financiamento da educação; na Alemanha, por causa da ameaça de serviço militar obrigatório; na Espanha e em Portugal, pela escassez de moradia a preços acessíveis. Na Indonésia, focam na poluição; na Argentina, são contra a austeridade econômica. Convivência intergeracional no trabalho: a pressão financeira decorrente do aumento da expectativa de vida atinge jovens e idosos Age without limits Na Sérvia, a Lista Estudantil de candidatos às eleições parlamentares nacionais conseguiu não apenas desalojar um governo manchado pela corrupção, mas também conquistar um mandato eleitoral. Na Austrália, uma grande manifestação estudantil está planejada para 12 de novembro, e sindicatos estudantis do Reino Unido e da Itália planejam um dia conjunto de mobilização contra o aumento do custo da educação em 20 de novembro. Brown afirma que as rebeliões juvenis atuais têm um perfil diferente: “Eclodem em um cenário global novo e mais perigoso, desafiando autoridades em questões que vão muito além da educação. Os jovens enfrentam uma crise de desemprego provocada pela IA; são prejudicados pelo direcionamento dos gastos públicos para os idosos, bem como pelo acesso restrito à educação; enfrentam uma crise habitacional e governos que minimizam a importância da emergência climática e da justiça intergeracional”. Na sua opinião, a crise do emprego para os jovens vai piorar, tendo a inteligência artificial como pano de fundo: “Os governos estão presos em uma camisa de força fiscal de tal proporção que terão dificuldades para encontrar recursos para atender às aspirações dos jovens. Uma parcela considerável dos gastos públicos é absorvida pelas gerações mais velhas, resultando em perdas para escolas e universidades. Os jovens acreditam que quaisquer promessas de que teriam uma vida melhor do que a geração de seus pais já foram quebradas – e esse argumento é muito forte”. Mas será que a culpa é dos mais velhos, especialmente dos baby boomers, que nasceram entre 1946 e 1964 e se beneficiaram de uma rede de proteção social que foi criada após a II Guerra Mundial? É verdade que o esforço para a reconstrução do Ocidente gerou enormes oportunidades para os jovens dessa geração, mas está na hora de derrubar a visão distorcida de que os boomers sufocaram todos os que vieram depois: a Geração X (1965-1980), os Millenials ou Geração Y (1981-1996) e a Geração Z (1997-2012). A jornalista MP Dunleavey, que assina a coluna Financing Longer Lives (Financiando vidas mais longas), da revista do Centro de Longevidade de Stanford, é categórica: em vez de apontar culpados, a saída é buscar um novo contrato social com o objetivo de diminuir o abismo patrimonial entre as gerações. “A pressão financeira decorrente do aumento da expectativa de vida atinge os dois lados. Hoje, os idosos têm medo de não conseguir cobrir os custos de vidas muito mais longas e não querem virar um fardo para os filhos. Ao mesmo tempo, os jovens lutam para encontrar estabilidade financeira”, analisa. Nos Estados Unidos, os baby boomers detêm cerca de 51% do patrimônio das famílias. Em comparação, a Geração X tem 26% do patrimônio familiar e, os Millennials, 11% – e os dois grupos tentam, a duras penas, poupar para sua própria velhice. Dunleavey cita James Chappel, professor associado de História na Universidade Duke e autor do livro Golden years: how americans invented and reinvented old age (em tradução livre, Anos dourados: como os americanos inventaram e reinventaram a velhice), que sugere uma revisão das regras vigentes sobre envelhecimento, patrimônio e relações entre gerações. Para ele, o modelo servia para uma época em que a velhice era um breve capítulo final, mas não funciona numa sociedade na qual as pessoas chegam aos 80 e 90 anos, frequentemente com condições crônicas e despesas expressivas. Sua proposta: por que a premissa deve ser a de que alguém tem que se virar sozinho dos 65 anos até o fim da vida? Em vez de isolamento e “resistência solitária”, acena com um novo pacto estruturado sobre o trabalho, a aposentadoria e o envelhecimento, que contemple apoio mútuo, ou seja, proteção aos idosos e uma rede de suporte para os mais jovens. Soa como utopia, mas talvez seja exatamente aquilo de que precisamos. Agora no g1